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RESENHA: “Primavera”, de Márcia Miyasaki

De Repente, Nós – Contos de amor

Hoje trago a resenha de um conto do livro De Repente, Nós, lançado neste ano pela Andross Editora. O  escritor Leandro Schulai, organizador do livro, faz uma adorável apresentação do conjunto de contos da antologia no texto O Eu Que Vira Nós e o Nós Que Vira Eu.

Quando pensamos em textos curtos sobre o tema, logo imaginamos histórias de pouca profundidade ou personagens rasos; o que de fato acontece muitas vezes, mas, em contrapartida, De Repente, Nós traz ao leitor dezenas de textos comoventes e tocantes, capazes marejar olhos e ocasionar suspiros, seja por sua carga sentimental ou, até mesmo, por retratar momentos em que todos nós estamos vivendo, ou já vivemos, ou ainda viveremos. Dessa coletânea, há vários escritos, dos quais desejo falar um pouco. Para começar, escolhi o conto Primavera, concebido pela escritora Márcia Miyasaki.

Confesso que já havia notado a sensibilidade na escrita da Márcia em outros trabalhos, porém eram contos de suspense ou terror, nada romântico até então. Quando finalmente peguei o exemplar em mãos, logo procurei pelo conto Primavera e o li. É fato que dependendo de nosso estado sentimental, algumas obras nos afetam mais que outras, mas é válido ressaltar que, também, há textos que independentemente de nossos estados, eles no tocam a alma. Esse foi um dos casos.

Somos apresentados à tímida Laura, nossa protagonista, cujos poucos relacionamentos amorosos que tivera fracassaram. No ônibus, durante uma viagem, ela começa a divagar sobre o assunto, rememorando alguns trechos de sua vida. Destaco o trecho:

[…] Pouquíssimas foram as vezes em que Laura ganhara flores de alguém. Logicamente não contabilizava os botões de rosa que se distribuem nas lojas e shoppings no dia oito de março, Dia Internacional da Mulher. Tampouco os mini-arranjos levados para casa como souvenires ao final de alguma festa. Geralmente, de casamento… […].

Quando mais leio, mais sinto a força desse trecho; ainda que com um tom cômico, possui grande sensibilidade, principalmente quando, avançando na história, nos deparamos com um caso de amor frustrado envolvendo flores, que impossível não remeter o leitor ao parágrafo acima. A Márcia trabalha o uso de deixar indícios que terão uma ligação importante no texto com bastante proficiência.

Cada lembrança de Laura, a mim, foi muito intensa. Sensível. Melancólica. Verdadeiras como se fossem um relato autobiográfico, daqueles que as vezes escapam de nós enquanto escrevemos. Fui tocado pela leveza de Laura e a emoção com que narrava seus dissabores amorosos. Acima citei os indícios deixados pela autora no texto (atentem-se às flores, são quase uma simbologia na história), pois bem, lembrem-se deles e capturem os momentos em que aparecem até o desfecho final do conto, por sinal, um fim leve e singelo, mas carregado de sentimento e uma reviravolta inesperada, mantida em segredo na narrativa.

Gosto da sinceridade nas palavras dos contos da Márcia e no ritmo aprazível durante a leitura.

Há pontos que não caem no meu gosto, como o uso do hehehe para nos mostrar os risos; detalhe que não atrapalha e tampouco desmerece a qualidade de Primavera, um grande conto não apenas de amor, mas sobre ele, e sobre amar e sentir-se amado. Uma bela historieta, leitura indispensável de De Repente, Nós.

Sobre Hugo Sales

É escritor. Participou de diversas coletâneas literárias até ganhar três troféus do Prêmio STRIX, concedido pela Andross Editora. É editor do blog Legado das Palavras.

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