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ARTIGO: Igualdade nas HQS (Yes, we can!)

Katniss, de”Jogos Vorazes”

Sempre me questionei por que nos gibis de super-heróis as mulheres são erotizadas e submissas. Não sinto que essas HQs sejam dirigidas ao novo público feminino que se formou com os filmes da Marvel/DC e com a consolidação de heroínas como Katniss (Jogos Vorazes), Lara Croft (Tomb Raider) e Tauriel (O Hobbit, A Desolação de Smaug). Nós, garotas nerds, não queremos ler sobre as típicas Barbies dependentes da aceitação masculina. Como os garotos querem se espelhar em um herói, queremos ser bem representadas nos quadrinhos também.

Mas, afinal, existe algum quadrinho realmente voltado ao público nerd feminino? Fui pesquisar e, após indicações de amigos, encontrei trabalhos que teoricamente deveriam ser voltados para mim. É o caso da HQ Ultra, dos irmãos Luna. Na história, as protagonistas são supermodelos perfeitas que não saem das capas de revistas. Detalhe: por questões contratuais são obrigadas a voar com roupas justas e recebem ordens de um homem que administra a agência onde trabalham – algo na linha da série As Panteras. Por tudo isso, me desculpem os especialistas em HQs, mas não achei Ultra uma HQ para uma garota nerd. É mais um trabalho dirigido ao público de quadrinhos alternativos. E só.

Red Sonja

Continuei minha busca e fui ler as recentes HQs da Sonja, de Gail Simone e Walter Geovani, editadas pela Dynamite. Como esse material é inédito no Brasil, li as versões digitais em inglês. Para quem não sabe, Sonja é uma guerreira destemida, com histórias muito atraentes para ambos os gêneros. Tanto que o roteiro se preocupa em mostrar mais a humana guerreira do que um símbolo sexual – apesar dos trajes curtos da protagonista. Na edição de 2013, por exemplo, Sonja finge estar bêbada para enganar saqueadores, tem suas botas sujas por vômito e ensina mulheres a manejar armas como um homem. Esses detalhes se contrapõem ao mito de que a mulher é o sexo frágil, tornando Sonja a verdadeira heroína na qual gostaríamos de nos espelhar. Curti muito e certamente outras garotas nerds teriam a mesma opinião.

Outro autor que representa bem o universo feminino é o quadrinhista norte-americano Jaime Hernandez, da série Lôcas. Suas personagens não são exatamente mulheres reais, mas agem como gostaríamos: são livres de preconceitos, de medo e de neuroses sobre o que vão pensar delas. Por isso, andam como bem entendem – descabeladas e, às vezes, com as peças íntimas à mostra, mas sem erotismo exagerado. É isso que as mulheres querem. Basta aceitá-las como realmente são. Para reforçar minha teoria, relembro aqui as palavras de Hernandez em sua entrevista na revista Mundo dos Super-Heróis, edição 55:

Estou mais interessado em como as mulheres realmente são do que em como eu gostaria que elas fossem.”

Para completar minha pesquisa, entrei de cabeça nas HQs da Marvel. Pelo que vi, a série dos X-Men é uma das poucas realmente voltadas para um público misto. Os problemas dos mutantes costumam ser universais. Assim como as mulheres, eles também lutam para sobreviver em um mundo preconceituoso. X-Men Adventures (1994) e O Melhor de Wolverine (1997), ambas da Ed. Abril, foram as HQs que me iniciaram no mundo nerd.

Estamos numa época em que a mulher conquistou seu espaço na sociedade e precisa ser retratada pelas suas qualidades e defeitos. Daí, a necessidade de heroínas críveis e HQs em que não sejamos só objetos sexuais ou um enfeite para a trama – vamos dizer não às mocinhas que só servem para se meter em encrenca e depois serem salvas por fortões. Para que Barbies e Lois Lanes, se existem Katniss, Lara Croft e Tauriel?

Sobre Paola Giometti

É escritora. Graduou-se em Biologia e é mestre e doutoranda em Ciências. Colaborou com a Revista Mundo dos Super-heróis na edição 57 com uma matéria sobre o papel da mulher nos quadrinhos. Em eventos sobre a cultura nerd, Paola é cosplayer da personagem Lara Croft, sua heroína nos games e hqs desde a infância. Publicou o livro O Destino do Lobo, primeiro volume da série Fábulas da Terra.

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