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RESENHA: “Punição”, de Eduardo Sugahara

Nesta resenha que marca minha estreia aqui no portal optei por começar com o livro Legado de Sangue, uma coletânea com historietas de terror e suspense, lançado neste ano pela Andross editora.

Como dito na apresentação, pelo escritor e organizador, Alfer Medeiros, no decorrer das páginas desta antologia encontraremos uma […] heterogênea mistura de estilos criativos […].

O que é a mais pura verdade. Composta por uma vasta game de insanas e aterradoras histórias; da primeira até a última página, dezenas de monstros, psicopatas e seres nefastos fazem jus ao nome Legado de Sangue. O primeiro conto abordado será também o que abre a coletânea, logo a nota introdutória, denominado Punição, escrito por Eduardo Sugahara (página 19 a 23).

Logo nos primeiros parágrafos o autor deixa claro aonde pretende nos levar. Adentramos, então, na fria psique de um pedófilo que nutre uma grotesca concupiscência da carne pela garotinha Anne. Sua vizinha. No segundo parágrafo temos o seguinte trecho: Eu vi aquela criança crescer, e com ela meu desejo. Que nos dá a amplitude de quão perturbadora a narrativa será.

Em primeira pessoa, Eduardo expõe pensamentos intrínsecos do personagem página por página, pesando as palavras e também a loucura dele, tornando impossível não fazermos uma rápida ligação à nossa realidade; assim, seguimos numa perturbadora ficção realista, dotadas de detalhes que embrulham o estômago, mesmo não apresentando nada explicitamente. O delicado trabalho de manter tudo nas entrelinhas é o grande divisor aqui, evitando que a história seja apenas visualmente impactante. Ele choca, mas da melhor maneira que poderia: mostrando os fatos, não contando brutalidades.

Um dos mistérios do conto: a máscara de raposa

Como a grande maioria das tramas apresentadas no decorrer da coletânea, Punição possui um excelente plotwist, apresentando-nos ao que, talvez, seja parte de uma ideia mais ambiciosa do autor; não quero revelar maiores detalhes, assim evitando qualquer spoiler desnecessário; no entanto, não posso deixar de citar alguns dos mistérios que recaem sobre o protagonista, quando enfim decide atacar Anne em sua própria casa. O agressor é surpreendido por algo além de sua compreensão o que mostra um clímax angustiante e libertador ao mesmo tempo.

Anne e sua família parecem adorar alguma espécie de divindade conhecida apenas por seus adeptos, isso fica claro, porém, algumas questões surgem: quem seria essa potestade? O que teria a máscara de raposa, mostrada em certos trechos, a ver com isso? São perguntas cujas respostas teremos que aguardar, pois somente o autor poderá nos dar em outras vindouras histórias, mas que, neste conto, não só faz parte do desfecho final, como também serve de uma possível apresentação a esse universo.

Por fim, destaco também a escrita direta, sem rodeios ou excessos, de Eduardo Sugahara. Fatores que contribuem muito para a história narrada, principalmente por se tratar de um conto breve. A experiência de estar na mente de um pedófilo é incômoda, mas, indubitavelmente, uma ótima escolha para abrir a antologia e mergulhar o leitor em mundos aterrorizantes.

Sobre Hugo Sales

É escritor. Participou de diversas coletâneas literárias até ganhar três troféus do Prêmio STRIX, concedido pela Andross Editora. É editor do blog Legado das Palavras.

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