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ARTIGO: O caso da literatura policial

Xeque Mate – Conto Policiais

Uma das maiores dificuldade que tive ao organizar a coletânea de contos policiais Xeque-mate, da Andross Editora, em 2014, foi, por mais incrível que pareça, encontrar contos que de fato pudessem ser enquadrados naquilo que se convencionou chamar de Literatura Policial. A princípio, isso pode parecer bastante simples, mas logo se percebe que não é, pois nunca é simples saber em qual gênero um texto se enquadra, mesmo porque nem todo texto quer necessariamente se enquadrar em um único gênero, o que leva à seguinte questão: afinal, o que é uma história policial?

Para tanto, podemos recorrer aos grandes mestres e estudiosos do gênero.

S. S. Van Dine, teórico e autor de histórias policiais, por exemplo, determinou certa vez vinte regras às quais toda boa trama policial deveria seguir. Tzvetan Todorov, o grande teórico estruturalista, por sua vez, resumiu as regras de Van Dine em oito tópicos, em seu interessante estudo Tipologia do Romance Policial:

  1. O romance policial deve ter no máximo um detetive e um
    culpado, e no mínimo uma vítima (um cadáver).
  2. O culpado não deve ser um criminoso profi ssional; não deve
    ser o detetive; deve matar por razões pessoais.
  3. O amor não tem lugar no romance policial.
  4. O culpado deve gozar de certa importância:
    a) na vida: não ser empregado ou uma camareira;
    b) no livro: ser uma das personagens principais.
  5. Tudo deve explicar-se de modo racional; o fantástico não é
    admitido.
  6. Não há lugar para descrições nem para análises psicológicas.
  7. É preciso conformar-se à seguinte homologia, quanto às
    informações sobre a história: autor : leitor culpado : detetive.
  8. É preciso evitar as situações e as soluções banais (TODOROV,
    2006, pp. 100-1).
Um dos inúmeros filmes de Sherlock Holmes, estrelado por Basil Rathbone

Obviamente, Todorov parte dessas regras para subvertê-las e questioná-las, afinal, mesmo que fizessem sentido na época de Van Dine, sem dúvida não podem dar conta de toda a gama de vertentes do romance policial que surgiram e surgem na modernidade e contemporaneidade e vão desde Assassinato no Expresso Oriente, de Agatha Christie a Cassino Royale, de Ian Fleming, de Cavernas de Aço, de Asimov às histórias do Batman, de O Xangô de Baker Street, de Jô Soares a Watchmen, de Alan Moore, passando por Dan Brown e outras histórias muito díspares para serem tão facilmente sintetizadas.

Ou seja, voltamos à estaca zero. Contudo, ainda há alguns elementos básicos que podemos elencar como essenciais a toda história deste estilo e, a partir deles, tentar desvendar O Caso da Literatura Policial.

Podemos presumir, para começar, que todo conto policial parte de um CRIME. Não necessariamente de um assassinato, como Van Dine pensava e como muitos afirmam, mas de um crime qualquer. Ou até de um suposto crime, afinal, tudo pode ser um engano e isso só ser descoberto no final, não é mesmo? Certo. De fato, toda história policial, seja conto, seja filme, parte de um crime. No entanto, não é porque há crime que a história é policial. Um exemplo? Bem, grande parte das histórias de serial killers, como a série Jogos Mortais, parte de um crime (ou de diversos), ainda assim, não são histórias policiais. Quase toda história de Terror e/ou Suspense trazem crimes como pontos elementares, mas nem por isso se enquadram no gênero. Pois bem, mas temos o fator primeiro: o Crime.

Poderíamos presumir também que toda história policial traz um MISTÉRIO, mas novamente, esse elemento também está no Suspense e, muitas vezes, no Terror e em outros gêneros diversos. Além disso, está comumente ligado ao sobrenatural e ao fantástico (que, por sua vez, não necessariamente impossibilita a literatura policial, veja bem). De toda forma, toda trama policial traz esse segundo fator: o Mistério.

Robert Langdon, um dos “detetives” da nova geração

Seria então o DETETIVE o elemento chave desse tipo de narrativa? Tampouco eu o consideraria exclusivamente, pois, embora a figura do Detetive seja elementar (com perdão do trocadilho, meu caro leitor), um Detetive que não investiga não faz uma história policial, por outro lado, uma pessoa de qualquer outra profissão poderia muito bem investigar um crime e desvendar um mistério, a exemplo das histórias de Dan Brown protagonizadas pelo professor Robert Langdon (para ficar no exemplo mais banal), que, embora nunca tenha trabalhado para a polícia, não deixa de solucionar mistérios, não é? Ou seja, toda história policial traz alguém que investiga. Um Investigador. O terceiro elemento, que, por sua vez, precisa ter, como em um jogo de xadrez, paciência, estratégia e observação, caso contrário o xeque-mate do adversário é certo. E o caso sempre deve ser solucionado (ainda que nem sempre a justiça vá ser feita).

Acho que isso diz alguma coisa… de modo que podemos concluir que a essência do conto policial não está necessariamente no Crime, no Mistério e no Investigador, embora sejam essenciais, mas sim na junção destes três elementos que juntos levam à INVESTIGAÇÃO. O ponto central. Investigação esta que pode ser conduzida por qualquer pessoa que seja atenta o suficiente para notar pistas, apurá-las, interpretá-las e deduzir o que de fato aconteceu, solucionando o crime e o mistério por trás dele.

Tudo isso para dizer, e justifi car também, que foi com isso em mente que estes contos foram selecionados. Contos distintos pelos mais variados motivos, narrados dos mais diferentes
pontos de vistas, mas unidos pelo ponto central de toda história policial: a Investigação.

Por ora, portanto, este caso está encerrado.

Sobre Bruno Anselmi Matangrano

É bacharel em Letras e mestre em Literatura Portuguesa, pela Universidade de São Paulo (USP), onde atualmente faz seu doutorado. Fascinado pelo século XIX, dedica suas pesquisas às literaturas simbolista, fantástica e policial do período. Como contista, publicou em diversas coletâneas, organizou algumas outras e publicou o livro "Contos para uma Noite Fria". Vive em meio a seus livros, ouvindo Coldplay, vendo filmes do Tim Burton, querendo ser Sherlock Holmes e tentando entender Mallarmé.

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